Minha
avó tentou ser para mim como minha mãe, diferente de outras avós ela me criou
com rédeas curtas, me acordava bem cedo antes de ir a escola, quando terminava
o banho me trocava e o café já estava na mesa, o cuscuz com leite, e rocambole
com leite e café e já me avisava :
_A
louça do almoço é sua quando chegar.
Eu
até entendo o lado dela, sempre teve problemas de saúde , mesmo sendo rígida
queria o melhor para mim, e tinha medo como qualquer outra pessoa de acontecer
algo, ou não ser bem criada e sofrer futuramente.
Entrei
no primeiro ano,ela me levava para escola, como toda criança não era diferente
eu chorava muitas vezes querendo voltar para casa , e no começo ela me trazia
de volta.
Mas
com o passar do tempo a gente se acostuma, e tem que ficar é inevitável.
Esta
fase é muito difícil para uma criança, ver os pais ou quem as leva partir é
muito ruim, o medo e a angústia da pessoa não voltar mais é complicado, naquele
momento nossa cabecinha fica pensando mil e uma forma de escapar daquela
situação.
Continuei
sofrendo quando minha mãe ia embora, mas como tudo na vida me acostumei e fui
seguindo minha vida morando com minha
avó, meu pai e minha tia.
Teve
momentos que pensei que minha mãe não me queria por isso tomou esta atitude.
Na
segunda série, minha avó que já não era muito boa de saúde comunicou minha mãe que eu passaria a ir com
o Otiniel para escola, uma vez que era somente atravessar a Avenida e como ele
era mais velho do que eu pegaria na
minha mão e iríamos juntos e voltaríamos também, isso quando Monique não
ia conosco.
Fui
fazendo ao longo da escola alguns amigos, que ainda existem na minha vida, não
com muito contato mas que serão inesquecíveis.
Sempre
tive ao meu lado Elis, Lúcia, Mila e Cláudia, pessoas incríveis que corriam
lado a lado, eram amigas mesmo, em situações boas e ruins, o que me fortaleceu
mais para permanecer naquela escola que era terrívelmente opressiva.
Quando
estava na transição da segunda para a terceira série aconteceu algo que
contribuiu bastante na época para uma mudança de personalidade, eu que sempre
fui uma pessoa tranquila, obediente, muitas vezes chorava em silêncio para não
incomodar, desde daquela fase na escola veio a primeira mudança.
Peguei
piolho(como toda criança) só que eu tinha muito cabelo, minha avó ficou desesperada
por mim e por meus primos, chegou ir à escola pedir que a professora orientasse
as mães para que diminuísse essa peste.
Tentou
de todas as formas desde vinagre, remédios , sarnapim, várias tentativas que
foram em vão, até que um belo dia ela me levou ao cabeleireiro e raspou minha
cabeça.
É ,
imagine você sendo uma menina com cara de menino, foi isso que aconteceu.
Lembro
como se fosse ontem a vergonha que senti de mim, de sair na rua, de brincar.
Mas
naquela época eu tive que ir mesmo, era criança , dependia da decisão de outras
pessoas, e com certeza minha avó jamais deixaria que eu parasse os estudos,
tive que ser forte e continuar indo mesmo contra minha vontade.
Na
escola tive dias de tormento , os meninos riam de mim , passavam perto e
ficavam me humilhando,apontavam , vários apelidos, jogavam comida, balas enfim,
começou o inferno na minha vida.
Eu
sempre tive notas boas, na realidade porque o primeiro D que
tirei apanhei de cinto da minha avó, e por isso sempre tive notas boas,a não
ser em matemática mas quando minha tia chegava todos os dias estudava comigo
para que eu fosse melhor neste quesito.(Que até hoje não sou boa )
Mal
sabia ela que já não queria mais ir para escola porque sofria humilhações
constantes e que por este motivo até nas aulas de Educação Física que eu mais
gostava não estava querendo mais participar.
Muitas
vezes quando meu primo fazia a mesma aula de Educação Física lá fora eu ia correndo
falar com ele que os meninos ficavam me zuando mais ao longo do tempo ele fez
amizades com os mesmos meninos e aderiu também a mesma maneira de me humilhar.
E não
adiantava contar para alguém porque nunca acreditavam em mim mesmo.
As
vezes quando se é criança, as brincadeiras são cruéis e te marcam para sempre,
tanto é que me lembro de cada cena descrita.
Comentei
com minha mãe, ela me disse:
_Isso
é fase, vai passar e você nem tá tão feia assim.
Isso
por que não era ela quem teve que se acostumar até mesmo ser paquerada por
mulheres na rua pensando que eu era homem.
Até
tentei comentar com a minha avó sobre isso , mas ela sempre me dizia que iria
falar com as professoras e ficava por isso mesmo.
Então
eu comecei a pensar que eu tinha que encontrar um jeito de mostrar que eu era
uma pessoa e não um bicho como me tratavam.
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