segunda-feira, 18 de março de 2013

3) Adaptação sofrida.



Minha avó tentou ser para mim como minha mãe, diferente de outras avós ela me criou com rédeas curtas, me acordava bem cedo antes de ir a escola, quando terminava o banho me trocava e o café já estava na mesa, o cuscuz com leite, e rocambole com  leite e café e já me avisava :
_A louça do almoço é sua quando chegar.
Eu até entendo o lado dela, sempre teve problemas de saúde , mesmo sendo rígida queria o melhor para mim, e tinha medo como qualquer outra pessoa de acontecer algo, ou não ser bem criada e sofrer futuramente.
Entrei no primeiro ano,ela me levava para escola, como toda criança não era diferente eu chorava muitas vezes querendo voltar para casa , e no começo ela me trazia de volta.
Mas com o passar do tempo a gente se acostuma, e tem que ficar é inevitável.
Esta fase é muito difícil para uma criança, ver os pais ou quem as leva partir é muito ruim, o medo e a angústia da pessoa não voltar mais é complicado, naquele momento nossa cabecinha fica pensando mil e uma forma de escapar daquela situação.
Continuei sofrendo quando minha mãe ia embora, mas como tudo na vida me acostumei e fui seguindo minha vida  morando com minha avó, meu pai e minha tia.
Teve momentos que pensei que minha mãe não me queria por isso tomou esta atitude.
Na segunda série, minha avó que já não era muito boa de saúde  comunicou minha mãe que eu passaria a ir com o Otiniel para escola, uma vez que era somente atravessar a Avenida e como ele era mais velho do que eu pegaria na  minha mão e iríamos juntos e voltaríamos também, isso quando Monique não ia conosco.
Fui fazendo ao longo da escola alguns amigos, que ainda existem na minha vida, não com muito contato mas que serão inesquecíveis.
Sempre tive ao meu lado Elis, Lúcia, Mila e Cláudia, pessoas incríveis que corriam lado a lado, eram amigas mesmo, em situações boas e ruins, o que me fortaleceu mais para permanecer naquela escola que era terrívelmente opressiva.
Quando estava na transição da segunda para a terceira série aconteceu algo que contribuiu bastante na época para uma mudança de personalidade, eu que sempre fui uma pessoa tranquila, obediente, muitas vezes chorava em silêncio para não incomodar, desde daquela fase na escola veio a primeira mudança.
Peguei piolho(como toda criança) só que eu tinha muito cabelo, minha avó ficou desesperada por mim e por meus primos, chegou ir à escola pedir que a professora orientasse as mães para que diminuísse essa peste.
Tentou de todas as formas desde vinagre, remédios , sarnapim, várias tentativas que foram em vão, até que um belo dia ela me levou ao cabeleireiro e raspou minha cabeça.
É , imagine você sendo uma menina com cara de menino, foi isso que aconteceu.
Lembro como se fosse ontem a vergonha que senti de mim, de sair na rua, de brincar.
Mas naquela época eu tive que ir mesmo, era criança , dependia da decisão de outras pessoas, e com certeza minha avó jamais deixaria que eu parasse os estudos, tive que ser forte e continuar indo mesmo contra minha vontade.
Na escola tive dias de tormento , os meninos riam de mim , passavam perto e ficavam me humilhando,apontavam , vários apelidos, jogavam comida, balas enfim, começou o inferno na minha vida.
Eu sempre tive notas boas, na realidade porque o primeiro  D  que tirei apanhei de cinto da minha avó, e por isso sempre tive notas boas,a não ser em matemática mas quando minha tia chegava todos os dias estudava comigo para que eu fosse melhor neste quesito.(Que até hoje não sou boa )
Mal sabia ela que já não queria mais ir para escola porque sofria humilhações constantes e que por este motivo até nas aulas de Educação Física que eu mais gostava não estava querendo mais participar.
Muitas vezes quando meu primo fazia a mesma aula de Educação Física lá fora eu ia correndo falar com ele que os meninos ficavam me zuando mais ao longo do tempo ele fez amizades com os mesmos meninos e aderiu também a mesma maneira de me humilhar.
E não adiantava contar para alguém porque nunca acreditavam em mim mesmo.
As vezes quando se é criança, as brincadeiras são cruéis e te marcam para sempre, tanto é que me lembro de cada cena descrita.
Comentei com minha mãe, ela me disse:
_Isso é fase, vai passar e você nem tá tão feia assim.
Isso por que não era ela quem teve que se acostumar até mesmo ser paquerada por mulheres na rua pensando que eu era homem.
Até tentei comentar com a minha avó sobre isso , mas ela sempre me dizia que iria falar com as professoras e ficava por isso mesmo.
Então eu comecei a pensar que eu tinha que encontrar um jeito de mostrar que eu era uma pessoa e não um bicho como me tratavam.


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